“Papa-museus”
Alguma vez se sentiu
cansado e frustrado depois visitar um museu?
Quem não?
Se é um “papa-museus”
como eu, percebe certamente a que me refiro. Querer ver tudo em pouco tempo,
rentabilizando ao máximo as visitas, exige boa condição física e intelectual, mas
encerra com essa sensação.
Há pequenos museus e há
museus megalómanos, e alguns ainda têm a própria arquitectura do espaço, que
acrescenta obrigatóriamente muito interesse e atenção.
O Museu do Louvre em Paris, é o museu mais
visitado do mundo. A relevância arquitetónica do edifício e o seu espólio, implicam
milhões de visitantes por ano; o seu acervo é de aproximadamente 38 mil objectos
artísticos realizados desde a pré-história até o século XIX.
Quanto tempo seria necessário
para ver todas as obras de arte do Museu do Louvre, com olhos de ver?
O Museu conhecendo esta
problemática, já possui diversos percursos para que o visitante possa seleccionar
o que mais lhe interessa e simplificar a sua visita.
Sabendo que nós, os
seres humanos, apenas temos até 90 minutos seguidos de concentração (estou a
ser optimista), o que nos restará depois de uma visita ao Louvre? Chegamos a um
ponto e esgotamos a nossa capacidade.
As obras de arte estão
nos museus, os livros nas bibliotecas…
Ninguém vai a uma
biblioteca e lê todos os livros, porque um livro demora horas ou dias para ser
lido. Para ver com olhos de ver uma obra de arte é algo semelhante. Reparem, quem
fez uma pintura ou uma escultura demorou dois meses, um ano, dois? E nós
demoramos menos de dois minutos para ver essa obra. Considero que é até ofensivo
para o autor, porque não nos damos tempo para observar e interpretar a mensagem
do mesmo, e muito menos elaborar a nossa interpretação. A superficialidade com
que, muitas vezes, observamos as obras de arte, contrasta com o tempo que
levamos para apreciá-las e com o tempo que os seus criadores dedicaram para
produzi-las.
Talvez isto explique a
nossa sensação de cansaço e frustração pela nossa falta de capacidade para absorver
tanta informação.
As entradas nos museus
raramente são gratuitas e a maioria das vezes, pretendemos aproveitar uma viagem,
um passeio para visitar vários museus em pouco tempo. O que fazer?
1 - Deve preparar-se em
casa, consultando informação sobre o que irá visitar. A internet é uma ajuda
preciosa.
2- Utilize o áudio
guia, para obter informação fidedigna e libertar o olhar durante a visita.
3 – Se for acompanhado,
tente realizar o seu percurso autónomamente, porque irá ser mais proveitosa, utilizando
o seu ritmo e tempo, consoante as suas preferências. Se tiver que ser
acompanhado, escolha o amigo certo.
4 - Se entrar preparado,
poderá considerar a hipótese de investir mais tempo nas obras mais
significativas ou naquelas que mais lhe interessam, atendendo sempre à sua limitação
em termos de concentração.
5 – Se tiver que dividir
a atenção entre as obras de arte expostas e as características do espaço, por
vezes peças de arquitectura únicas e muito especiais, e se permitirem recolha
de imagens, não hesite em fotografar, para mais tarde poder rever a visita,
activar a memória e melhorar a sua pesquisa posterior, se for necessária.
Na verdade, no final,
se lembrarmos 10% do que vimos, já é muito. Acredito que uma boa visita é
quando o impacto do trabalho que vimos permanece connosco por muito tempo. Ter
o tal amigo por perto pode ser muito útil para trocar opiniões. Quando podemos
mencionar algo para os amigos e conectá-lo com a nossa vida quotidiana,
interiorizamos melhor o conhecimento, tornando-o mais significativo. Esse é o
tipo de impacto que um artista quer ter.
Tente parar e reflectir
sobre o impacto do que viu, o que significa para a sua vida quotidiana e na sua
relação com o mundo – tenho o hábito de escrever sobre o que vi. O convite à
reflexão após a visita torna-se um ponto crucial, pois a arte não é apenas para
ser vista, mas para ser sentida e interiorizada.
Se lhe for possível, revisite
obras especiais – a emoção talvez seja ainda maior. Além disso, a sugestão de
revisitar obras especiais e reflectir sobre o impacto delas nas suas vidas é
fundamental para criar uma conexão mais profunda com a arte.
Já repeti diversas
vezes Vieira da Silva, Amadeo, Graça Morais, Batarda, Armanda Passos, Almada
Negreiros, Chichorro, Nadir Afonso, Aurélia de Sousa, Cruzeiro Seixas,… aqui no
nosso Portugal, enriquecendo-me cada vez mais nas novas visitas.
Partilho convosco uma
obra muito especial, que merece muito tempo para observação, porque as
mensagens e interpretações são inesgotáveis: “Tentações de Santo Antão” de
Bosch exposto no Museu de Arte Antiga em Lisboa - é uma obra complexa e cheia
de simbolismo, que realmente merece tempo e atenção para ser plenamente
apreciada.
Publicado em NVR, 26|03|2025